Dutasterida e finasterida são os dois bloqueadores de DHT mais estudados na calvície androgenética masculina. Como agem sobre a mesma via hormonal, a dúvida sobre qual das duas funciona melhor é comum, e a resposta dos estudos tem nuances que uma frase não comporta.
Em ensaios de 24 semanas, a dutasterida aumentou mais a contagem de fios do que a finasterida. Em prazos maiores, a finasterida tem mais dados, e a dutasterida quase nenhum. Nos ensaios curtos, os efeitos sexuais não diferiram de forma significativa entre as duas.
No Brasil, as bulas do Avodart, medicamento de referência da dutasterida, e do Propecia, da finasterida de 1 mg, trazem a indicação para a queda de cabelo de padrão masculino em homens adultos.
O que as duas têm em comum
Nos homens com predisposição genética, o DHT, hormônio derivado da testosterona, leva à miniaturização dos folículos: a cada ciclo o fio nasce mais fino, até que o folículo deixa de produzir um fio visível. Tanto a dutasterida quanto a finasterida reduzem a conversão da testosterona em DHT, e os medicamentos desse grupo formam os bloqueadores de DHT.
As duas exigem prescrição e acompanhamento médico, e nenhuma delas muda a predisposição genética à calvície.
Onde elas diferem
A enzima 5-alfa-redutase existe em mais de uma forma. A finasterida inibe o tipo 2, e a dutasterida inibe os tipos 1 e 2. Em um estudo com 399 homens com hiperplasia da próstata, a dutasterida reduziu o DHT no sangue em cerca de 95% após 24 semanas, contra cerca de 71% da finasterida na dose usada para essa condição. São dados sobre o hormônio no sangue de outra população, e não sobre o cabelo, mas ajudam a explicar por que a dutasterida foi testada na calvície.
A permanência no organismo também é diferente. Segundo a bula do Avodart, a meia-vida terminal da dutasterida é de 3 a 5 semanas. Segundo a bula do Propecia, a da finasterida é de 5 a 6 horas em homens de 18 a 60 anos.
A bula do Avodart informa ainda que os estudos na calvície incluíram homens de 18 a 50 anos e que não há dados de eficácia acima dessa idade.
O que os estudos comparativos mostram
O ensaio mais citado, de Gubelin Harcha e colegas, em 2014, reuniu 917 homens de 20 a 50 anos, que receberam dutasterida em três doses, finasterida ou placebo por 24 semanas. A dose mais alta de dutasterida aumentou a contagem e a espessura dos fios mais do que a finasterida e o placebo, e o número e a gravidade dos eventos adversos foram semelhantes entre os grupos. Segundo a bula, a vantagem sobre a finasterida já aparecia na semana 12. Os autores apontam o prazo de 24 semanas como limitação.
Uma metanálise de 2019 reuniu três ensaios com 576 homens e apontou a mesma direção. A contagem total de fios, as avaliações por fotografia e a autoavaliação dos participantes favoreceram a dutasterida. A análise cobre 24 semanas de tratamento.
A metanálise em rede de 2022, publicada no JAMA Dermatology, comparou 23 estudos de tratamentos isolados. Na semana 24, a dutasterida teve o maior ganho de contagem total de fios, à frente da finasterida e das formas de minoxidil comparadas, e o minoxidil oral teve o maior ganho de fios terminais. Na semana 48, os melhores resultados foram os da finasterida, e a análise não incluiu tratamentos combinados.
Juntos, esses trabalhos sustentam que a dutasterida produz maior ganho de fios em até seis meses. Eles não permitem dizer que a vantagem se mantém em prazos mais longos, porque não há comparação direta de longa duração.
Efeitos colaterais e alertas
Os efeitos sobre a função sexual, como queda da libido, dificuldade de ereção e alterações da ejaculação, são os mais descritos para os dois medicamentos. Na metanálise de 2019, libido, ereção e ejaculação não diferiram de forma significativa entre dutasterida e finasterida, mas os ensaios duraram 24 semanas e não informam sobre a tolerância em prazos longos.
Um estudo britânico de 2016, publicado no BMJ, acompanhou homens a partir de registros de atendimento primário. Entre os tratados com inibidores da 5-alfa-redutase para hiperplasia da próstata, grupo que incluiu usuários de dutasterida, o risco de disfunção erétil não aumentou em relação a quem usava outra classe de medicamento. Entre os homens com calvície, o uso de finasterida também não foi associado a aumento do risco. Os dados de dutasterida vêm apenas do grupo com hiperplasia da próstata.
Em junho de 2025, a Anvisa publicou um alerta de farmacovigilância sobre disfunção sexual, alterações de humor, depressão e ideação suicida associadas à finasterida e à dutasterida por via oral, e classificou a frequência desses eventos como desconhecida. A bula do Avodart informa que os eventos sexuais podem persistir depois da suspensão, sem que o papel da dutasterida nisso seja conhecido. Mudanças de humor ou da função sexual durante o uso são motivo para falar com o médico.
Como a escolha costuma ser conduzida
Na consulta, o médico considera o estágio da calvície, o histórico de saúde e de uso de outros medicamentos, a resposta a tratamentos anteriores e as preferências do paciente diante dos riscos e benefícios conhecidos. Os cuidados descritos na bula do Avodart também entram na conversa: a contraindicação para mulheres e menores de 18 anos, o contato com cápsulas que estejam vazando e a restrição à doação de sangue por seis meses depois da última dose.
Os dois medicamentos também são estudados em associação com o minoxidil, tema do artigo sobre tratamento combinado de minoxidil e bloqueador de DHT. Os estudos citados acima avaliaram tratamentos isolados, e a combinação também exige prescrição e acompanhamento.
O que concluir da comparação
A comparação tem um dado firme e outro ausente. O dado firme é que, em 24 semanas, a dutasterida aumentou mais a contagem de fios do que a finasterida em ensaios controlados. O que falta é um estudo longo, com os dois medicamentos lado a lado, para mostrar se a vantagem se mantém e se o perfil de segurança acompanha o da finasterida ao longo dos anos.
Até lá, a pergunta sobre qual é melhor não tem resposta única, e a decisão individual fica com o médico que conhece o histórico de cada paciente.
O que lembrar
- Em ensaios de 24 semanas, a dutasterida aumentou mais a contagem de fios do que a finasterida. Na semana 48 de uma metanálise em rede, a finasterida liderou.
- Não há comparação direta de longo prazo entre as duas.
- Nos ensaios curtos, os efeitos sexuais não diferiram de forma significativa, e a Anvisa considera desconhecida a frequência de efeitos sexuais e de humor.
- As bulas do Avodart e do Propecia trazem a indicação para queda de cabelo de padrão masculino, e a escolha entre os dois medicamentos cabe ao médico.
