
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para queda capilar deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
A finasterida é um medicamento de uso oral aprovado pela Anvisa para o tratamento da alopecia androgenética, nome técnico da calvície masculina. Ela reduz a produção de di-hidrotestosterona, o hormônio associado à miniaturização dos fios, e por isso age sobre a causa hormonal da queda.
Em um ensaio clínico controlado com mais de 1.500 homens, o uso diário reduziu a progressão da queda e aumentou o crescimento capilar ao longo de dois anos. Segundo a bula, costuma ser preciso usar o medicamento todos os dias por três meses ou mais para que algum benefício seja observado.
Em junho de 2025, a Anvisa alertou que as bulas de finasterida e dutasterida de uso oral passam a incluir advertências sobre disfunção sexual, alterações de humor, depressão e ideação suicida. Por isso, a prescrição e o acompanhamento médico ficaram ainda mais centrais na decisão de tratar.
Como a finasterida age na queda de cabelo
A queda androgenética começa com a ação do DHT sobre os receptores dos folículos de quem tem predisposição genética. O hormônio provoca a miniaturização progressiva do fio, que afina, tem o ciclo de crescimento encurtado e deixa de nascer.
O DHT vem da conversão da testosterona pela enzima 5-alfa-redutase. A finasterida inibe a forma tipo 2 dessa enzima e reduz a quantidade de DHT no sangue e no couro cabeludo, embora a bula registre que a contribuição de cada uma dessas reduções para o efeito no cabelo não foi definida.
Com menos DHT agindo sobre o folículo, a miniaturização tende a diminuir e o fio tem condições de retomar o crescimento. A finasterida integra, por isso, a classe dos bloqueadores de DHT, ao lado da dutasterida.
As diferenças de potência e de mecanismo entre as duas estão detalhadas na comparação entre dutasterida e finasterida.
Existe também uma formulação de aplicação no couro cabeludo, com status regulatório diferente no Brasil. Os estudos sobre a finasterida tópica estão detalhados em outro artigo.
O que os estudos mostram sobre a eficácia
No ensaio de Kaufman e colaboradores, a contagem de fios aumentou em relação ao início entre os homens que usaram finasterida por dois anos e diminuiu no grupo placebo. A diferença entre os grupos já aparecia no primeiro ano e ficou maior no segundo.
Uma metanálise em rede publicada em 2022 no JAMA Dermatology comparou minoxidil e inibidores da 5-alfa-redutase em 23 ensaios. Na semana 48, o maior aumento na contagem total de fios ocorreu com finasterida oral, em dose acima da indicada para a calvície, com diferença significativa em relação ao minoxidil tópico a 2%. Em outros desfechos e outros momentos do tratamento, a posição de cada medicamento no ranking mudou.
Quanto tempo a finasterida leva para fazer efeito
A bula indica que o uso diário por três meses ou mais costuma ser necessário antes que algum benefício seja observado, e a resposta varia de pessoa para pessoa. Nos primeiros meses, as mudanças tendem a ser pouco visíveis no espelho.
Os resultados dependem da continuidade. Segundo a bula, o efeito sobre o cabelo se perde em até 12 meses depois que o tratamento é interrompido, porque o medicamento controla a condição sem curá-la.
A cirurgia de transplante capilar não interrompe a miniaturização dos fios nativos, e por isso o tratamento clínico segue sendo avaliado pelo médico depois do procedimento.
Por que a finasterida exige prescrição
Medicamentos à base de finasterida não são isentos de prescrição. A avaliação médica permite considerar histórico de saúde, contraindicações e a relação entre benefício e risco antes de iniciar, manter ou interromper o uso.
A automedicação retira essa camada de avaliação em um tratamento que altera o equilíbrio hormonal e exige monitoramento ao longo do tempo. Informações sobre apresentação, posologia e cuidados de uso constam da bula e da prescrição individual.
O bloqueador de DHT também pode ser prescrito junto com o minoxidil, que age por outro mecanismo. O tratamento combinado está detalhado em outro artigo.
Efeitos colaterais da finasterida
A informação de prescrição descreve, entre os eventos adversos relatados nos estudos clínicos, redução da libido, disfunção erétil e alteração do volume ejaculado, além de sensibilidade ou aumento das mamas e reações de hipersensibilidade.
Nos ensaios de 12 meses, esses eventos também foram relatados por homens do grupo placebo, o que dificulta separar o efeito do medicamento da expectativa. A Anvisa classifica a frequência desses eventos como desconhecida.
A bula registra ainda relatos pós-comercialização de disfunção sexual que continuou depois da interrupção do tratamento, e agências como a Anvisa e a agência europeia de medicamentos incorporaram o tema às bulas.
O que mudou com o alerta da Anvisa
Em junho de 2025, a Anvisa publicou o alerta GGMON 07/2025 sobre finasterida e dutasterida de uso oral, depois da revisão do comitê de farmacovigilância da agência europeia de medicamentos.
O documento reconhece evidência de risco aumentado de alterações de humor, depressão e ideação suicida, e cita a redução da libido e a disfunção erétil entre os efeitos a informar aos pacientes. A maior parte dos casos de ideação suicida ocorreu com a dose usada para queda de cabelo, inclusive em pessoas sem histórico psiquiátrico.
O alerta registra que a frequência desses eventos é desconhecida, ou seja, não pode ser estimada com os dados disponíveis, e que os sintomas podem continuar depois da suspensão. Por isso, recomenda que o médico avalie histórico de depressão e ideação suicida antes de começar e acompanhe sinais de depressão, ansiedade e pensamentos suicidas durante e depois do uso.
A mesma revisão concluiu que os benefícios continuam superando os riscos nas indicações aprovadas. Para os pacientes, o alerta orienta interromper o uso e procurar atendimento médico diante de alteração de humor, tristeza persistente, pensamentos de autolesão ou disfunção sexual.
Saúde sexual e efeito nocebo
A expectativa também influencia o relato de sintomas. Em um estudo publicado no Journal of Sexual Medicine com homens tratados com finasterida para hiperplasia da próstata, os que foram informados antes sobre os possíveis efeitos sexuais relataram esses sintomas com frequência muito maior do que os não informados, um exemplo de efeito nocebo.
O achado ajuda a interpretar parte dos relatos, mas não anula o risco reconhecido pelas agências reguladoras. O artigo sobre finasterida e efeitos colaterais reúne os detalhes.
O que os estudos dizem sobre outros receios
Testosterona e massa muscular
Ao inibir a 5-alfa-redutase, a finasterida reduz de forma acentuada o DHT circulante e provoca um aumento discreto da testosterona, que permanece dentro da faixa fisiológica, segundo a informação de prescrição.
Massa muscular e desempenho físico não foram desfechos avaliados nos ensaios de eficácia para calvície, de modo que esses estudos não sustentam afirmações de ganho nem de perda.
Câncer de próstata
Um estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2003, com homens que usaram finasterida na dose indicada para a próstata, maior do que a da calvície, observou redução de cerca de 25% no risco de diagnóstico de câncer de próstata. Houve também proporção maior de tumores classificados como de alto grau, achado que gerou preocupação por anos.
A análise de longo prazo do mesmo grupo, com mediana de 18 anos de seguimento, não encontrou aumento da mortalidade por câncer de próstata entre os usuários. O medicamento reduz os níveis de PSA, o que precisa ser considerado na interpretação do exame, e o rastreamento segue como decisão individual, conduzida pelo médico.
Fertilidade
A informação de prescrição registra, entre os relatos pós-comercialização, casos de infertilidade masculina e má qualidade do sêmen.
Em uma série de 27 homens que procuravam avaliação de fertilidade e usavam finasterida, publicada na Fertility and Sterility, a contagem de espermatozoides aumentou em média mais de dez vezes depois da suspensão do medicamento, e nenhum homem teve queda. O estudo é pequeno e não tem grupo de comparação, então aponta uma associação sem estabelecer causa. Quem planeja ter filhos tem motivo para discutir o assunto com o médico antes de iniciar ou manter o tratamento.
O que a evidência permite concluir
A finasterida é um dos poucos tratamentos orais com ensaios controlados mostrando menos perda e mais fios em homens com calvície androgenética, e o benefício existe enquanto o uso continua. Ao mesmo tempo, o alerta da Anvisa de 2025 reconhece riscos sexuais e psiquiátricos de frequência desconhecida, que os ensaios de eficácia não permitem quantificar.
Na prática, a decisão pesa o ganho esperado sobre o cabelo contra esses riscos, e isso depende do histórico de saúde, das expectativas e do acompanhamento ao longo do tempo. Essa avaliação cabe ao médico.
O que lembrar
- A finasterida reduz o DHT e, em ensaios controlados, freou a perda de fios e aumentou a contagem capilar ao longo de dois anos, com benefício que depende do uso contínuo.
- A bula indica que três meses ou mais de uso diário costumam ser necessários para algum benefício aparecer, e o efeito se perde em até 12 meses depois da interrupção.
- Desde 2025, o alerta da Anvisa reconhece risco de disfunção sexual, alterações de humor, depressão e ideação suicida, de frequência desconhecida, o que torna a prescrição e o acompanhamento médico parte indispensável do tratamento.
