
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para queda capilar deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Quem pesquisa sobre queda de cabelo esbarra nos dois termos e sai com a impressão de que são intercambiáveis. Não são, e a diferença importa mais do que parece.
Alopecia é a ausência ou perda de cabelo em uma área onde ele deveria estar, segundo a definição do StatPearls. Pode ser localizada ou difusa, temporária ou permanente, e atinge ambos os sexos em qualquer idade.
A calvície é um desses quadros, não o conjunto todo. E os outros tipos se manifestam de formas que não se parecem entre si, com evoluções diferentes e condutas diferentes.
Alopecia e calvície são a mesma coisa?
Não. Alopecia é o termo médico geral para qualquer perda de cabelo ou pelos, e funciona como um guarda-chuva. Calvície é o nome popular de um dos quadros que esse guarda-chuva cobre: a alopecia androgenética.
A confusão tem uma explicação simples. A androgenética é de longe a mais comum, então, na conversa do dia a dia, o tipo mais frequente acabou emprestando o nome ao grupo inteiro.
No consultório, essa imprecisão custa caro, porque o tratamento muda conforme o tipo. A Sociedade Brasileira de Dermatologia é direta ao afirmar que o diagnóstico correto das diversas causas é fundamental para a definição do tratamento.
A divisão que organiza todos os tipos
Antes de listar nomes, existe uma pergunta que separa tudo em dois grupos: o folículo capilar continua vivo ou foi destruído? A classificação clínica das alopecias parte exatamente daí, como descreve a revisão histológica publicada em Actas Dermo-Sifiliográficas.
Nas alopecias não cicatriciais, o folículo é preservado. Ele pode estar enfraquecido, dormente ou encolhido, mas a estrutura que produz o fio continua lá, e o crescimento pode retomar quando a causa do problema é eliminada.
Nas cicatriciais, uma inflamação crônica substitui o folículo por tecido fibroso, num processo que leva à perda permanente. As não cicatriciais são as mais prevalentes, e é onde estão praticamente todos os quadros que levam um homem a procurar ajuda.
Alopecias que preservam o folículo
Alopecia androgenética
É o nome técnico da calvície e a causa mais frequente de queda capilar. Ela aparece em um padrão reconhecível: recuo da linha frontal nas têmporas, rarefação no topo da cabeça, ou os dois ao mesmo tempo, sempre poupando a faixa das laterais e da nuca.
A revisão brasileira publicada nos Anais Brasileiros de Dermatologia descreve que ela se manifesta a partir da segunda década de vida e afeta cerca de 30% dos homens por volta dos 30 anos e 50% aos 50, piorando com a idade.
O mecanismo é a miniaturização folicular. Os folículos geneticamente sensíveis à di-hidrotestosterona encolhem a cada ciclo, e o fio nasce progressivamente mais fino e mais curto até deixar de ser visível.
A progressão desse padrão é descrita pela escala de Norwood, que separa os estágios da perda, e a fisiopatologia completa está no guia sobre calvície masculina. Quando a rarefação se concentra no topo, o quadro tem características próprias.
Alopecia areata
Se apresenta como falhas arredondadas e bem delimitadas, de contorno liso, que podem surgir no couro cabeludo, na barba, nas sobrancelhas ou nos cílios. O padrão é bem diferente do da androgenética: em vez de rarefação progressiva numa região, são áreas circulares que aparecem de forma relativamente súbita.
A causa é autoimune, com o sistema imunológico atacando o próprio folículo. Conforme a revisão clínica do JAAD Reviews, o risco de desenvolver areata ao longo da vida é estimado em cerca de 2% da população geral, e o curso é imprevisível.
Eflúvio telógeno
Aqui o padrão é difuso, sem áreas delimitadas. O leitor percebe uma quantidade anormal de fios no ralo do chuveiro ou no travesseiro, e uma perda geral de volume, sem uma região específica que chame mais atenção que as outras.
A queda acontece cerca de três a quatro meses depois de um evento que serviu de gatilho, segundo a revisão publicada no Journal of Clinical and Diagnostic Research. Cirurgias, doenças, alimentação restritiva, deficiência de ferro e estresse importante estão entre os gatilhos descritos.
Esse intervalo de meses é o que torna o quadro confuso para quem o vive, porque o evento que causou a queda já passou quando ela aparece. O intervalo corresponde ao tempo do ciclo de crescimento do cabelo: o gatilho empurra os fios para a fase de repouso, e eles só se soltam depois.
Alopecia por tração
Menos comentada, mas relevante o suficiente para entrar na lista. É a perda causada por tensão mecânica repetida sobre o fio, e aparece nas áreas submetidas à tração, com frequência nas têmporas e na linha frontal.
Penteados muito apertados, apliques e tranças são os fatores mais citados. Nos estágios iniciais o folículo ainda está preservado, mas a tração mantida por tempo prolongado pode evoluir para dano permanente, o que joga o quadro para o outro grupo.
Alopecias que destroem o folículo
As cicatriciais formam um grupo de doenças mais raras, em que a inflamação crônica destrói o folículo e o substitui por tecido fibroso. Como não sobra estrutura capaz de produzir fio, a perda naquela área é permanente.
O que costuma diferenciá-las na apresentação são os sinais de inflamação no couro cabeludo: vermelhidão, descamação, ardência ou dor. A pele da área afetada também pode ficar lisa e brilhante, com o desaparecimento visível dos orifícios foliculares.
Nenhum desses sinais é conclusivo isoladamente, e a suspeita de um quadro cicatricial é justamente uma das situações em que a avaliação não deve esperar.
Como o médico diferencia um tipo do outro
O padrão da perda dá as primeiras pistas. Queda difusa aponta numa direção, falhas circulares em outra, rarefação em padrão numa terceira. Só que padrões se sobrepõem, e uma pessoa pode ter mais de um tipo ao mesmo tempo.
O diagnóstico da alopecia androgenética é basicamente clínico e hoje é corroborado por achados tricoscópicos bem estabelecidos, conforme a revisão dos Anais Brasileiros de Dermatologia. A tricoscopia é o exame do couro cabeludo com aumento, que permite ver a variação de calibre dos fios e outros sinais invisíveis a olho nu.
A história clínica pesa tanto quanto o exame. Um evento estressante três meses antes, um histórico familiar de calvície precoce ou o uso de um medicamento novo mudam completamente a leitura do mesmo quadro.
Em situações selecionadas, sobretudo quando há suspeita de alopecia cicatricial, a biópsia do couro cabeludo entra como ferramenta para identificar a variante específica.
É por isso que autodiagnóstico não funciona aqui. Não porque o leitor não seja capaz de observar o próprio cabelo, mas porque a informação que separa um tipo do outro frequentemente não está visível a olho nu.
O que lembrar:
- Alopecia é o termo que cobre qualquer perda de cabelo, e a calvície é apenas o tipo mais comum dentro dele. A classificação que importa na prática separa os quadros em que o folículo é preservado, como a androgenética, a areata e o eflúvio telógeno, daqueles em que ele é destruído, as cicatriciais.
- Cada tipo se manifesta em um padrão próprio, e é esse padrão, somado à história clínica e à tricoscopia, que orienta o diagnóstico. Sobre o que cada um deles permite esperar em termos de recuperação, a resposta está em alopecia tem cura?.
- Para quem já sabe que o caso é de alopecia androgenética, o cluster do blog cobre o tratamento em detalhe, do minoxidil ao protocolo combinado.


