As alterações da tireoide podem causar queda de cabelo, geralmente de forma difusa, por todo o couro cabeludo. Isso acontece porque os hormônios tireoidianos participam da regulação do ciclo dos folículos e, quando permanecem alterados, podem levar mais fios à fase de repouso antes da hora.
Mais do que isso, a tireoide comanda o ritmo metabólico do corpo inteiro, e o folículo capilar está entre os tecidos que mais sentem quando esse ritmo sai do lugar. Hormônios tireoidianos se ligam a receptores nas células do folículo e participam da regulação da fase de crescimento do fio.
Quando o nível desses hormônios se altera de forma sustentada, uma proporção maior de folículos entra na fase de repouso antes da hora, e o resultado é queda difusa. O padrão é diferente do da calvície masculina, e essa diferença é o que orienta a investigação.
O que acontece no folículo
O nome do quadro é eflúvio telógeno. Em condições normais, cada folículo cicla de forma independente, com uma parcela pequena em repouso a qualquer momento, o que mantém a queda diária dentro de uma faixa previsível.
No eflúvio telógeno esse sincronismo se quebra. Muitos folículos migram juntos para a fase de repouso e caem juntos alguns meses depois. Uma revisão sobre o quadro registra que a queda diária, normalmente em torno de cem fios, pode chegar a quatrocentos nesses casos, e distingue a forma aguda da crônica pelo limite de seis meses de duração.
É por isso que a queda aparece de repente e assusta. O gatilho aconteceu meses antes.
Hipotireoidismo e hipertireoidismo não pesam igual
Os dois quadros aparecem na literatura associados a queda capilar, e os dados disponíveis sugerem que o peso deles é diferente.
Um estudo retrospectivo com 500 pacientes com eflúvio telógeno comparou três grupos, com função tireoidiana normal, com hipotireoidismo e com hipertireoidismo.
A proporção de casos com queda grave foi de 34% no grupo com hipotireoidismo, contra 18% no grupo de função normal. O grupo com hipertireoidismo ficou em 20%, sem diferença estatística em relação ao grupo de função normal.
Duas ressalvas importam na leitura. O estudo incluiu apenas mulheres, o que limita a transposição direta para homens, e é retrospectivo, o que significa que ele observa uma associação sem estabelecer causa.
O que ele sugere é que o hipotireoidismo tem ligação mais consistente com queda intensa do que o hipertireoidismo, e não que este último seja irrelevante.
O que diferencia essa queda da calvície
A distinção mais útil é geográfica. A queda de origem tireoidiana é difusa, espalhando por todo o couro cabeludo, incluindo as laterais e a nuca, que na calvície androgenética permanecem preservadas.
A calvície avança em padrão, com recuo das entradas e clareamento do topo, e os fios que nascem no lugar dos que caem vão ficando mais finos a cada ciclo.
No eflúvio, o fio que cai é normal e o que volta também, porque o folículo não está encolhendo, está apenas fora de sincronia.
O ritmo também separa os dois. A calvície leva anos e quase não se percebe mês a mês, enquanto o eflúvio aparece em semanas e costuma vir com mudança na textura, com fios ressecados e quebradiços no hipotireoidismo e mais finos no hipertireoidismo.
Entender quando a queda passa de normal a excessiva ajuda a situar o que está acontecendo antes da consulta.
Cabelo raramente é o único sinal. Alterações de tireoide costumam vir acompanhadas de mudança de peso, intestino, temperatura, sono, humor e nível de energia, e é o conjunto que leva ao diagnóstico.
O sinal famoso que quase não aparece
A perda do terço externo da sobrancelha é citada em todo texto sobre tireoide como o sinal clássico de hipotireoidismo. Ela existe, e é bem menos comum do que a fama sugere.
Um relato publicado com revisão da literatura registra que cerca de 65% dos pacientes com hipotireoidismo apresentam algum sinal dermatológico, incluindo pele seca, queda difusa e fios grossos e quebradiços, enquanto a madarose, nome técnico da perda de sobrancelhas e cílios, aparece em torno de 2% dos diagnosticados.
A consequência prática é direta. A presença desse sinal chama atenção, e a ausência dele não afasta nada.
Quando os dois quadros coexistem
Um homem pode ter calvície androgenética em curso e desenvolver alteração de tireoide ao mesmo tempo, e essa combinação é mais comum do que parece porque as duas condições são frequentes na população adulta.
Nesse cenário a queda difusa se soma ao padrão que já estava avançando, e o resultado costuma ser uma piora súbita em quem vinha com progressão lenta. Tratar a tireoide resolve a parcela difusa e não age sobre a miniaturização, que segue o curso dela e tem tratamento próprio.
Existe ainda uma associação a mencionar. Doenças autoimunes de tireoide, como a tireoidite de Hashimoto, aparecem com frequência maior em pessoas que têm alopecia areata, que é outro quadro autoimune e produz falhas circulares em vez de queda difusa.
O que esperar depois do tratamento
A queda ligada à tireoide costuma ser reversível quando a função hormonal é normalizada, porque os folículos continuam vivos e apenas saíram de sincronia. A recuperação, porém, não é imediata.
O ciclo capilar impõe o próprio calendário, e leva meses entre a estabilização hormonal e a percepção de que o cabelo voltou a encher. É comum a queda continuar por algumas semanas depois do início do tratamento, porque os folículos que já haviam entrado em repouso ainda vão completar o percurso.
O que lembrar:
- Alterações de tireoide provocam queda difusa por eflúvio telógeno, com fios saindo de todo o couro cabeludo, inclusive das laterais e da nuca, o que a diferencia da calvície androgenética, que avança em padrão e com afinamento progressivo dos fios.
- Os dados disponíveis associam o hipotireoidismo a quadros mais graves de queda do que o hipertireoidismo, e a perda do terço externo da sobrancelha, embora seja o sinal mais citado, aparece em uma minoria dos casos.
- A queda tende a ser reversível com a normalização hormonal, ainda que leve meses, e tratar a tireoide não age sobre a calvície, que pode estar acontecendo ao mesmo tempo.
