
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para queda capilar deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
A finasterida tópica é aplicada no couro cabeludo para reduzir o DHT, hormônio ligado à queda de cabelo, com menor exposição do corpo ao medicamento. Mas isso não significa que ela fique restrita à região aplicada.
Um estudo mostrou que em 24 semanas, a fórmula em spray aumentou o número de fios em relação ao placebo e reduziu o DHT no sangue em 34,6%, contra 55,6% com o comprimido.
A concentração do medicamento no sangue foi mais de 100 vezes menor, o que pode diminuir, mas não eliminar, o risco de efeitos colaterais.
No Brasil, ainda não existe finasterida tópica industrializada registrada na Anvisa. As versões são manipuladas em concentrações variadas, enquanto o estudo avaliou uma fórmula específica de 0,25%.
Por isso, os resultados não podem ser aplicados automaticamente a qualquer finasterida tópica manipulada.
Por que a via tópica foi desenvolvida
O comprimido funciona reduzindo o DHT em circulação, e é dessa redução sistêmica que decorrem os efeitos adversos discutidos na literatura.
Mesmo com incidência baixa nos ensaios, o receio pesa na decisão de começar, como mostra o artigo sobre o que é a finasterida oral e para que ela serve.
A proposta da via tópica é entregar o inibidor da 5-alfa-redutase onde ele precisa agir, já que o folículo é o sítio da conversão de testosterona em DHT e o lugar onde a miniaturização acontece.
Reduzir o hormônio localmente preservaria o efeito capilar e encolheria o resto, e é essa hipótese que os ensaios foram desenhados para testar.
O que o estudo na fase mais avançada encontrou
O principal estudo sobre finasterida tópica reuniu 458 homens que receberam finasterida em spray, placebo ou finasterida em comprimido durante 24 semanas. É o ensaio clínico mais relevante para avaliar a eficácia da versão tópica.
Na área do topo da cabeça analisada, a finasterida tópica levou a um ganho médio ajustado de 20,2 fios, contra 6,7 fios com placebo. O comprimido teve resultado semelhante, com 21,1 fios. Mas o estudo não foi desenhado para dizer que as duas versões funcionam igualmente.
A diferença aparece na quantidade de medicamento que chega ao sangue:
- Na semana 12, a concentração de finasterida foi de 36,5 pg/mL com a versão tópica, contra 7.166 pg/mL com o comprimido.
- O DHT no sangue caiu 34,6% com a tópica e 55,6% com a oral.
Há, porém, uma ressalva importante: a melhora apareceu na avaliação dos investigadores, mas não na avaliação feita por um avaliador independente que não sabia qual tratamento cada participante havia recebido.
Além disso, 24 semanas ainda é pouco tempo para avaliar uma mudança visual no cabelo.
O erro de leitura mais comum sobre a finasterida tópica
Um erro comum é pensar que a finasterida tópica não chega ao sangue. Ela chega e a quantidade depende do volume aplicado.
Os estudos mostram que o volume aplicado faz diferença. Com quantidades menores, a redução do DHT foi de 47% a 52% no couro cabeludo e de 24% a 26% no sangue.
Isso indica que aplicar mais não torna o tratamento mais seguro, e sim aproxima o perfil da tópica do perfil do comprimido, sem a padronização de dose que o comprimido tem.
O volume aplicado faz parte da terapia tanto quanto a concentração, e é por isso que a via de administração não dispensa prescrição nem acompanhamento.
O mesmo raciocínio sobre via de administração aparece na comparação entre minoxidil oral e minoxidil tópico.
Para quem está comparando alternativas antes de decidir, o panorama dos medicamentos com evidência para calvície ajuda a situar cada uma delas.
O que os dados de segurança mostram
Os efeitos colaterais aparecem em dois lugares, no couro cabeludo e no restante do corpo.
Na pele, o estudo principal registrou mais irritação do que com placebo, com coceira em 2,2% dos homens contra 0,6% e vermelhidão em 2,2% contra nenhum caso no grupo placebo.
Já um acompanhamento de 52 semanas fora do ambiente de pesquisa observou irritação leve e passageira em 6,2% dos participantes.
Efeitos colaterais sexuais
No restante do corpo, os efeitos sexuais ligados ao tratamento apareceram em 2,8% dos homens com a versão tópica, 3,3% com o placebo e 4,8% com o comprimido, e ninguém do grupo tópico abandonou o tratamento por causa disso.
Uma análise que juntou os resultados de seis estudos, com 1.104 homens no total, não encontrou aumento de disfunção erétil nem de queda de libido em relação ao placebo.
Isso não significa risco zero. A maior parte desses estudos acompanhou os participantes por cerca de seis meses, tempo curto demais para identificar efeitos muito raros ou que demoram a aparecer.
Os autores do estudo principal registram que efeitos ligados à redução do DHT continuam possíveis, ainda que menos prováveis com o spray. O quadro completo dessa discussão está nos artigos sobre a finasterida oral e sobre a relação entre finasterida e disfunção erétil.
O que é diferente no Brasil
Aqui a distância entre o estudo e a farmácia é maior do que em outros países. A revisão publicada nos Anais Brasileiros de Dermatologia, periódico oficial da Sociedade Brasileira de Dermatologia, é direta sobre isso.
Segundo essa revisão, no Brasil só têm aprovação oficial em bula para a calvície masculina o minoxidil tópico e a finasterida e a dutasterida em comprimido. A finasterida tópica não está nesse grupo.
Ela é o que se chama de uso fora de bula, quando o médico prescreve um medicamento de uma forma que não consta na aprovação oficial. Na prática, só é encontrada manipulada, feita sob encomenda em farmácia a partir da receita, em concentrações que vão de 0,025% a 2% dependendo do lugar.
Nenhum estudo comparou esses manipulados com a fórmula testada nas pesquisas para saber se entregam o mesmo resultado. A revisão registra a consequência disso, que é a falta de padronização na concentração e na base líquida em que o medicamento é diluído tornar a eficácia imprevisível.
Um manipulado em concentração e base diferentes não reproduz o produto do estudo, e não há como presumir nem o mesmo efeito no cabelo nem a mesma quantidade de medicamento chegando ao sangue.
Então, vale a pena usar finasterida tópica?
A evidência disponível permite dizer que o spray funciona melhor que placebo e que ele coloca bem menos medicamento na circulação do que o comprimido. Ela não permite dizer que os dois são equivalentes, nem que a versão tópica seja livre de efeitos no restante do corpo.
Para quem chega ao assunto por causa do receio dos efeitos colaterais, essa é a informação que muda a conversa. A escolha entre as duas formas envolve perfis de risco diferentes, com quantidades diferentes de evidência por trás de cada uma.
No Brasil entra um fator a mais. Como o produto só existe manipulado, o resultado depende de uma fórmula que não foi a testada nas pesquisas, o que torna o acompanhamento médico mais decisivo aqui do que em países onde existe versão registrada.
Na prática, a pergunta que o dermatologista responde no consultório é qual das formas faz sentido para o seu grau de queda, o seu histórico de saúde e a sua tolerância ao tratamento.
O que lembrar:
- No principal estudo, o spray aumentou o número de fios em relação ao placebo e chegou a um resultado parecido com o do comprimido, mas a pesquisa não foi feita para provar que as duas versões são equivalentes.
- A quantidade de medicamento que chega ao sangue é mais de cem vezes menor com o spray, e ainda assim o DHT do sangue caiu 34,5% em 24 semanas.
- O volume aplicado pesa tanto quanto a concentração, e com volume alto a queda do DHT no sangue chega de 60% a 70%, perto do patamar do comprimido.
- Os efeitos sexuais apareceram em frequência parecida com a do placebo, em estudos curtos demais para descartar efeitos raros ou que demoram a aparecer.
- No Brasil não existe versão registrada na Anvisa, o uso é fora de bula e o produto só é encontrado manipulado, com concentrações que variam entre farmácias.
- A decisão entre spray e comprimido passa por avaliação médica, que considera grau de queda, histórico de saúde e tolerância ao tratamento.

