Em homens jovens e saudáveis, a finasterida usada para queda de cabelo não alterou os principais parâmetros do sêmen em um ensaio controlado de quase um ano. Em homens que já tinham contagem espermática baixa, porém, a resposta foi diferente.
É por isso que a relação entre finasterida e fertilidade não tem uma resposta única: o ponto de partida de cada homem importa. Histórico de fertilidade, alterações prévias no espermograma e planos de ter filhos mudam a conversa sobre o tratamento.
Por que a pergunta faz sentido
A finasterida pertence à classe dos bloqueadores de DHT e age inibindo a enzima que converte testosterona em di-hidrotestosterona.
O DHT participa do desenvolvimento e do funcionamento de estruturas do sistema reprodutor masculino, incluindo a próstata e as vesículas seminais, que produzem boa parte do volume do ejaculado.
Reduzir o DHT, portanto, tem potencial de mexer em parâmetros do espermograma, que é o exame que mede volume do sêmen, concentração, número total, mobilidade e formato dos espermatozoides. A questão nunca foi se o mecanismo é plausível, e sim qual o tamanho do efeito na prática.
O que se observa em homens com espermograma normal
O estudo de referência acompanhou homens jovens e saudáveis por 48 semanas, comparando a concentração usada no tratamento capilar com placebo. Não houve efeito significativo sobre concentração de espermatozoides, número total por ejaculado, mobilidade ou formato.
O volume do ejaculado caiu um pouco nos dois grupos, e a diferença entre quem tomava o medicamento e quem tomava placebo não foi significativa. Houve redução pequena do volume da próstata e do PSA, ambas reversíveis depois da interrupção.
É a base do que costuma ser dito em consulta. Para a maioria dos homens, nessa concentração, o exame não muda.
O que muda na concentração mais alta
Um ensaio controlado publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism avaliou inibidores da 5-alfa-redutase em concentração mais alta, a usada para próstata, ao longo de 52 semanas, com mais 24 semanas de acompanhamento depois da interrupção.
A contagem total de espermatozoides caiu de forma significativa na metade do período, com redução em torno de um terço. Aos doze meses a diferença já não era significativa, e no acompanhamento após a suspensão também não.
O volume do ejaculado diminuiu, o formato dos espermatozoides não mudou, e houve redução pequena de mobilidade que persistiu no seguimento.
A conclusão dos autores é que a queda dos parâmetros é discreta e aparentemente reversível. Vale marcar que esse resultado vem da concentração de próstata, e transpor os números dele para o tratamento capilar seria esticar o achado.
O grupo em que o efeito aparece
O dado mais relevante para quem está tentando engravidar vem de outro lugar. Uma clínica de infertilidade masculina revisou os prontuários de 4.400 homens atendidos ao longo de quatro anos e encontrou 27 que usavam finasterida na concentração capilar, com tempo médio de uso próximo de cinco anos.
Depois da suspensão, a contagem de espermatozoides aumentou em média 11,6 vezes. Entre os que tinham contagem muito baixa, 57% voltaram para a faixa considerada normal. Nenhum homem teve piora. Mobilidade, formato e hormônios não mudaram.
Duas coisas dimensionam esse achado. A primeira é que se trata de 0,6% dos homens atendidos, ou seja, um grupo pequeno dentro de uma população que já procurava ajuda por dificuldade de engravidar.
A segunda é que não houve grupo de comparação que continuasse o medicamento, o que impede falar em prova formal de causa.
A recomendação dos autores é direta. Em homens com contagem baixa que desejam ter filhos, a finasterida deve ser suspensa, e o uso pede cautela em quem está tentando engravidar.
E a gravidez da parceira?
Existe uma preocupação diferente que costuma se misturar a essa, e vale separar. A finasterida tem risco descrito para o desenvolvimento do feto masculino, e por isso mulheres grávidas não devem manusear comprimidos partidos ou triturados.
A quantidade da substância excretada no sêmen é descrita como muito baixa, e as fontes de referência não a apontam como risco esperado para a gestação. Ainda assim, é um ponto que pertence à conversa com o médico que acompanha o casal, e não a um texto na internet.
O que isso significa na prática
A leitura conjunta dos três estudos sugere um padrão. Em homens com espermograma normal, a concentração capilar não muda o exame de forma mensurável.
Em homens que já têm produção reduzida, o medicamento pode empurrar os números para baixo, e a interrupção tende a reverter isso em poucos meses.
Daí sai uma conduta que não é regra e sim conversa. Quem está tentando engravidar, ou pretende tentar em breve, tem motivo para levar isso à consulta antes de começar ou de continuar o tratamento.
Em alguns casos o médico pode pedir um espermograma, em outros pode sugerir pausa, e em outros nada muda. A decisão passa pela avaliação individual que a prescrição exige, e a escolha entre finasterida e dutasterida também entra nessa conversa.
O que lembrar:
- Em homens jovens e saudáveis, a concentração de finasterida usada para queda de cabelo não alterou os parâmetros do espermograma em ensaio controlado de 48 semanas.
- Em concentração mais alta, houve redução discreta da contagem total no meio do período, que deixou de ser significativa ao fim do estudo e após a suspensão.
- O achado mais relevante vem de uma clínica de fertilidade, em que homens com contagem baixa apresentaram aumento médio de 11,6 vezes depois de interromper o medicamento, o que levou os autores a recomendar suspensão nesses casos e cautela em quem deseja ter filhos.
- Como o efeito depende do ponto de partida de cada um, a decisão é clínica e passa por conversar sobre planos de fertilidade antes de começar.
