Sim, a dutasterida pode causar efeitos sexuais, e eles estão descritos na bula do medicamento. São queda do desejo, dificuldade de ereção e alterações na ejaculação. O que a literatura ainda não sabe dizer é com que frequência isso acontece em quem usa o medicamento para queda de cabelo.
Essa lacuna tem peso. Em junho de 2025, a Anvisa publicou um alerta sobre a dutasterida e a finasterida em comprimido e passou a classificar como desconhecida a frequência dos efeitos sexuais e das alterações de humor nessa indicação.
Por que a frequência é desconhecida
Os números que circulam vêm em boa parte de estudos feitos com pacientes de próstata, que são mais velhos e usam doses diferentes. Transportar esses valores para um homem de 30 anos tratando calvície não é a mesma coisa.
Some-se a isso a dificuldade de separar o que é efeito do remédio do que é expectativa. Estudos em que parte dos participantes recebeu comprimido sem substância ativa mostram queixas sexuais também nesse grupo, o que indica que parte do relato tem origem na antecipação do efeito.
Dizer que a frequência é desconhecida é mais honesto do que apresentar um percentual com aparência de precisão. Também é o que a autoridade sanitária brasileira determinou.
O que está descrito na bula
Além dos efeitos sexuais, a bula do medicamento descreve aumento e sensibilidade das mamas, reações alérgicas na pele, sintomas depressivos, dor e inchaço nos testículos e alteração no crescimento de pelos do corpo.
A bula também traz um aviso próprio sobre a indicação capilar, registrando que se trata de indicação nova no país e que podem ocorrer eventos adversos ainda desconhecidos, com orientação de notificar pelo sistema de vigilância da Anvisa.
Quem quiser conferir a versão atual pode buscar o produto no Bulário Eletrônico da Anvisa, que é a fonte oficial e costuma estar mais atualizada que qualquer texto sobre o assunto.
A dutasterida sai do corpo mais devagar que a finasterida
Essa é a diferença que mais pesa na prática e quase não aparece nas conversas sobre o tema.
A finasterida é eliminada em poucas horas. A dutasterida leva semanas, porque o organismo demora muito mais para se livrar dela. Se alguém interrompe as duas hoje, o corpo continua exposto à dutasterida por um tempo bem mais longo.
Isso muda a conversa sobre qualquer efeito que apareça, e é uma das razões pelas quais alguns médicos preferem começar pela finasterida. A comparação entre as duas tem artigo próprio.
Ela bloqueia mais DHT, e é daí que vem a discussão
As duas pertencem à mesma família, a dos bloqueadores de DHT, que reduzem a conversão de testosterona no hormônio que encolhe o folículo.
A diferença é o alcance. A finasterida age sobre um dos dois tipos da enzima responsável por essa conversão, e a dutasterida age sobre os dois, o que derruba mais o DHT no organismo.
É por isso que ela costuma aparecer como opção para quem não respondeu bem à finasterida, e também por isso que a preocupação com efeitos é maior. Os estudos que compararam as duas, porém, não mostraram diferença clara na frequência de queixas sexuais entre elas.
No Brasil ela é aprovada para calvície desde 2022
Durante anos a dutasterida foi usada para queda de cabelo sem constar na bula para essa finalidade, o que se chama de uso fora de bula.
Isso mudou quando a Anvisa autorizou a inclusão do tratamento da calvície masculina na bula do medicamento de referência, e hoje versões genéricas também trazem a indicação.
Importante: em mulheres, o uso para queda de cabelo segue fora de bula.
Como qualquer medicamento dessa família, a dutasterida é vendida sob prescrição, e a receita depende de avaliação médica que confirme o diagnóstico e verifique contraindicações.
Importância de um acompanhamento médico
O que isso muda na prática é o peso do acompanhamento.
Quem começa a dutasterida com consultas de retorno marcadas e um canal aberto para relatar qualquer mudança está numa situação diferente de quem compra o medicamento e some. A incerteza sobre a frequência é justamente o argumento mais forte a favor de não tratar sozinho.
E é o mesmo motivo pelo qual relatar um sintoma vale mais do que pesquisar sobre ele. Cada notificação feita pelo médico ao sistema da Anvisa entra na conta que um dia vai permitir responder a pergunta que hoje não tem resposta.
O que lembrar:
- A bula descreve queda de libido, dificuldade de ereção e alterações na ejaculação entre os efeitos possíveis da dutasterida.
- Desde o alerta da Anvisa de junho de 2025, a frequência dos efeitos sexuais e das alterações de humor na dose usada para cabelo é classificada como desconhecida.
- Outros efeitos descritos incluem aumento e sensibilidade das mamas, reações alérgicas na pele, sintomas depressivos e dor nos testículos.
- O corpo leva semanas para eliminar a dutasterida, enquanto a finasterida sai em poucas horas.
- A dutasterida bloqueia os dois tipos da enzima que produz DHT, e os estudos comparativos não mostraram diferença clara de queixas sexuais entre as duas.
- No Brasil, a indicação para calvície masculina consta em bula desde 2022, e o medicamento é vendido sob prescrição.
