A química do alisamento costuma quebrar o fio, e quebra não é a mesma coisa que queda pela raiz. São problemas diferentes, com desfechos diferentes. A diferença define tudo, porque o fio quebrado deixa a área com aspecto ralo sem que o folículo tenha parado de produzir.
Há exceções importantes. O formol, proibido pela Anvisa como agente alisante, aparece entre as substâncias capazes de causar queda de cabelo, além de irritação e queimadura no couro cabeludo, e o ácido glioxílico também está fora da lista de ativos autorizados.
Existe ainda o efeito indireto, quando o cabelo alisado passa a ser preso com força. Aí a tração se soma à fragilidade deixada pela química.
Quebra do fio e queda pela raiz: a diferença que muda o diagnóstico
Os dois problemas produzem a mesma queixa, o cabelo parecendo mais ralo, e têm origens opostas. Uma revisão sobre cosméticos capilares, escrita por uma dermatologista brasileira, destaca justamente a importância de distinguir a queda por eflúvio telógeno da perda causada por quebra da haste, distinção que nem sempre fica clara para o paciente.
A pista prática está na ponta do fio perdido. O fio que cai pela raiz traz na base um bulbo esbranquiçado, enquanto o fio quebrado tem as duas pontas irregulares e costuma ser mais curto que o restante do cabelo.
O padrão da perda também ajuda. Quebra por química costuma se concentrar no comprimento e nas áreas mais tratadas, enquanto a calvície segue o desenho das entradas e do topo, descrito no guia de calvície masculina.
O que o alisamento faz na fibra do cabelo
Alisar significa romper e refazer ligações químicas dentro do fio, e nenhum processo desse tipo é neutro para a estrutura. Uma revisão sobre cosméticos em pacientes com queda de cabelo lista entre os efeitos possíveis a quebra da haste, a remoção de lipídios, a perda de proteína e a dermatite de contato.
O risco aumenta quando os procedimentos se acumulam. Alisamento em cabelo recém-descolorido, repetições em intervalo curto e aplicação sobre fios já fragilizados são situações em que o dano se soma, e o resultado aparece semanas depois, quando o fio quebra no comprimento. A própria Anvisa desaconselha a sequência de descoloração e alisamento.
Formol: o que a Anvisa proíbe e por quê
Esse é o ponto em que a química realmente se liga à queda pela raiz. A Anvisa informa que o formol não pode ser usado como alisante capilar no Brasil, e que o uso indevido pode causar irritação, coceira, queimadura, inchaço, descamação e vermelhidão do couro cabeludo, além de queda do cabelo e sintomas respiratórios.
A mesma agência registra que o problema persiste na prática. Em pesquisa da Anvisa, 35% dos fiscais de vigilância sanitária que responderam relataram ter constatado uso irregular de formol em alisantes.
A substância é permitida em cosméticos apenas em concentrações baixas, como conservante, faixa que não produz alisamento. Quando um produto promete alisar por causa do formol, ele está fora do que a regulação autoriza.
O ácido glioxílico, ativo comum em progressivas vendidas como alternativa ao formol, entrou na mesma lista. O Informe de Segurança GGMON 03/2025 registra que ele não está autorizado para alisamento desde a Instrução Normativa 22, de 2023, e que causa danos severos quando aquecido, situação criada justamente pela prancha e pelo secador.
O mesmo informe lista os ativos permitidos para alisamento, entre eles o ácido tioglicólico e seus sais. Ele também recomenda não aplicar alisamento após descoloração, combinação que multiplica o dano.
Química e tração: a combinação que soma risco
Existe um segundo caminho, e ele é mais comum do que parece. A revisão de referência sobre alopecia por tração registra que o uso de alisamento químico soma ao risco de perda por tensão mecânica, porque o fio quimicamente tratado tolera menos a força aplicada por penteados presos.
Nesse cenário, a perda acontece na linha em que o cabelo é puxado, e não no comprimento. É o quadro descrito no artigo sobre alopecia por tração, que começa reversível e pode terminar em cicatriz quando a tração continua.
Se a queda segue o padrão das entradas e do topo da cabeça, e não o desenho da química ou do penteado, o tratamento que age sobre a causa preserva mais fios quanto antes começa.
Sinais de que o problema passou da fibra para o couro cabeludo
Enquanto o dano fica na haste, os sintomas são estéticos, com fios ásperos, quebradiços e sem brilho. Quando aparecem ardência, vermelhidão, descamação intensa, feridas ou dor, a agressão atingiu a pele, e é aí que o risco muda de natureza.
Esses sinais pedem interrupção do produto e avaliação médica. A inflamação persistente no couro cabeludo pode evoluir para perda definitiva, como acontece nas formas descritas em alopecia cicatricial.
Química no cabelo: o que decidir antes da próxima aplicação
A pergunta útil não é se a química faz mal, e sim o que exatamente está em jogo em cada caso. Quebra de fio é reversível, porque o folículo continua produzindo, e o cabelo volta ao normal conforme cresce. Dano ao couro cabeludo é outra categoria, com risco de perda permanente quando a inflamação se repete.
Isso dá dois critérios práticos antes de marcar a próxima aplicação. O primeiro é o produto, que precisa ser regularizado, já que nenhum resultado compensa o uso de formol como alisante.
O segundo é o estado do cabelo e da pele, porque aplicar química sobre fio recém-descolorido ou couro cabeludo irritado multiplica o dano.
Para quem já tem calvície, existe um terceiro ponto. A química não causa o padrão androgenético, mas deixa o cabelo mais frágil justamente quando cada fio conta mais, e a perda por quebra se soma à perda que já estava em curso.
O que lembrar:
- O alisamento químico costuma provocar quebra do fio, com o folículo preservado, o que difere da queda pela raiz.
- A distinção aparece na ponta do fio perdido e no padrão da perda, e orienta o que fazer em seguida.
- O formol é a exceção relevante, proibido pela Anvisa como alisante e associado a irritação, queimadura e queda de cabelo, e o ácido glioxílico também não é autorizado para essa finalidade.
- Química combinada com penteados presos aumenta o risco de alopecia por tração, e sintomas no couro cabeludo pedem interrupção do produto e avaliação médica.

