Depois de cada epidemia de dengue, consultórios de dermatologia recebem a mesma queixa em volume. A pessoa se recuperou da febre, voltou à rotina, e semanas depois começa a perder cabelo em quantidade que assusta.
Esse padrão tem nome, tem medidas publicadas e tem uma particularidade que o distingue da queda que segue outras febres. A dengue parece alcançar o folículo de forma mais direta.
O que a série de 14 casos mostrou
A epidemia de 2015 em Tainan, em Taiwan, atingiu mais de 1% da população local, e uma clínica dermatológica da cidade passou a ver grupos de pacientes com o mesmo quadro. Os médicos reuniram esses casos em uma série retrospectiva, com coleta entre novembro de 2015 e março de 2016.
Foram 14 pacientes, treze mulheres e um homem, com média de 40,1 anos e dengue confirmada por exame sorológico. A queda começou em média 2,1 meses após a infecção e durou em média 2,9 meses. A tricoscopia mostrou fios curtos em recrescimento em quatro deles, sinal de que o ciclo estava se reorganizando.
O achado mais útil da série aparece quase de lado. Dez das treze mulheres também tinham calvície de padrão feminino, identificada durante a investigação da queda aguda.
A dengue chega ao folículo
A explicação mais simples para a queda depois de qualquer doença febril passa pela interrupção do ciclo capilar sob estresse fisiológico. No caso da dengue existe uma hipótese adicional, apoiada em trabalho de laboratório.
Em 2020, um estudo infectou células da papila dérmica do folículo humano com o vírus da dengue tipo 2. Proteína e material genético do vírus continuaram detectáveis depois de 33 dias de cultura, com efeito citopático e liberação de uma enzima que indica dano celular importante.
Os genes ligados ao crescimento do fio tiveram comportamento próprio nesse experimento. Wnt1, Wnt4 e Rip1 subiram no primeiro dia e caíram nos dias seguintes, e os autores propõem que essa queda de sinalização, somada à inflamação persistente, poderia contribuir para perda de cabelo prolongada.
A ressalva vem dos próprios pesquisadores. O estudo foi feito em células cultivadas, não mostrou replicação viral em folículo humano e não demonstrou alteração direta do ciclo capilar. Eles afirmam que seria necessária evidência em pacientes ou em modelo animal.
O que se descreveu no Brasil
Durante a epidemia de 2015, um serviço ligado à Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC-SP atendeu casos do mesmo tipo e os reuniu em um relato apresentado em congresso. Foram 11 pacientes, dez mulheres e um homem, atendidos entre junho e agosto daquele ano.
O intervalo entre a dengue e o início da queda variou de um a cinco meses nesse grupo, uma faixa mais ampla que a da série taiwanesa. Os autores concluem que o quadro é reativo e reversível, e que a conduta central está em identificar e corrigir causas associadas.
Esse relato circulou como resumo de congresso, formato que não passa pela mesma revisão de um artigo completo. Vale como registro de que o fenômeno foi observado aqui, com a limitação que o formato impõe.
Por que a queda costuma revelar outra coisa
O dado das dez mulheres com calvície de padrão feminino na série de 14 casos descreve uma situação comum. A perda difusa aguda deixa a rarefação prévia mais visível, e o que começa como susto pós-infecção termina em diagnóstico de um quadro que já estava em curso.
Existe até relato publicado de queda aguda após dengue que imitava alopecia androgenética na apresentação clínica. O mecanismo das duas condições é diferente, e o tratamento também, o que torna a distinção decisiva. O funcionamento geral desse tipo de queda está em eflúvio telógeno.
O que esperar da recuperação
A queda reativa a um evento febril é descrita como autolimitada na maioria dos casos. Uma revisão da literatura sobre o tema registra remissão em cerca de 95% dos quadros agudos, definidos por duração inferior a seis meses, geralmente depois que a causa é afastada.
As medidas das séries de dengue batem com esse padrão. Cerca de três meses de duração na série taiwanesa, com fios curtos em recrescimento já visíveis na tricoscopia de parte dos pacientes.
A densidade, porém, demora mais que a queda. O fio cresce em ritmo aproximado de um centímetro por mês, de modo que a sensação de normalidade no espelho fica bem atrás do fim da perda. Para calibrar a percepção de volume, como saber se a queda é normal ou excessiva ajuda.
Quando a espera deixa de ser razoável
O critério que separa observar de investigar é a combinação entre tempo e padrão. Queda difusa que começa dentro dos primeiros meses depois da dengue e diminui sozinha em até seis meses se encaixa no que a literatura descreve.
Fora disso, o cálculo muda. Perda que passa de seis meses, que se concentra nas entradas ou na coroa, que vem com dor, descamação ou vermelhidão, ou que surge em falhas circulares, aponta para outra coisa em paralelo.
Como parte importante dos pacientes dessas séries tinha um segundo quadro capilar não diagnosticado, atribuir tudo à dengue e esperar é justamente o erro que custa tempo.
O que lembrar
- Em série com 14 pacientes, a queda começou em média 2,1 meses depois da dengue e durou em média 2,9 meses.
- Uma série brasileira de 11 casos descreveu intervalo mais amplo, de um a cinco meses entre a infecção e o início da perda.
- Estudo em células cultivadas detectou o vírus da dengue na papila dérmica do folículo por 33 dias, com dano celular e queda na sinalização de crescimento.
- Esse estudo é de laboratório e não demonstrou replicação viral no folículo humano nem alteração direta do ciclo capilar.
- Dez das treze mulheres da série de 14 casos também tinham calvície de padrão feminino, descoberta durante a investigação.
- Quadros agudos remitem em cerca de 95% dos casos, e a recuperação da densidade é mais lenta que a parada da queda.

