
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para queda capilar deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
A creatina não tem, na literatura disponível, evidência de que cause queda de cabelo. Nenhum estudo em humanos registrou perda capilar como resultado da suplementação.
O primeiro ensaio clínico que mediu diretamente a saúde do folículo, publicado em 2025, não encontrou diferença entre creatina e placebo em densidade capilar, contagem de unidades foliculares ou espessura dos fios.
O mito tem origem rastreável, um estudo de 2009 com 20 jogadores de rúgbi que mediu apenas hormônio no sangue e nunca foi replicado. A resposta de 2025 também tem limites de tamanho e duração, e quem já tem alopecia androgenética instalada ou histórico familiar forte segue acompanhando a queda com dermatologista, por causa da genética.
De onde veio a história
O boato de academia tem um documento de origem, o que é raro. Em 2009, pesquisadores acompanharam jogadores de rúgbi universitários e mediram hormônios androgênicos.
Cada participante passou por um período com creatina e outro com placebo, separados por seis semanas de intervalo, no formato que a literatura chama de desenho cruzado.
O trabalho saiu no Clinical Journal of Sport Medicine. Após a primeira semana de uso, o DHT estava 56% acima do valor inicial. Após três semanas, estava 40% acima, e a razão entre DHT e testosterona subiu 22%. A testosterona total não aumentou, e foram esses números que viajaram, sem o resto do contexto.
O que o estudo de 2009 não mediu
A lista de ressalvas é longa o suficiente para reconfigurar a conclusão. O estudo não mediu queda de cabelo, densidade capilar ou qualquer parâmetro do folículo.
Mediu hormônio no sangue, o que é coisa diferente de perder cabelo, e deixou de fora a testosterona livre, a fração do hormônio que circula disponível para agir.
Vinte homens foram recrutados e dezesseis completaram o protocolo. Há ainda um desbalanço inicial que muda a leitura do aumento de 56%. O DHT de partida do grupo da creatina era de 0,98 nmol/L, contra 1,26 nmol/L do placebo, ou seja, 23% mais baixo.
Em números absolutos, o aumento foi de 0,55 nmol/L, o grupo placebo caiu 0,17 nmol/L no mesmo período, e todos os valores permaneceram dentro da faixa considerada normal.
A revisão publicada no Journal of the International Society of Sports Nutrition, com participação do pesquisador brasileiro Bruno Gualano, da Universidade de São Paulo, registra que os resultados desse estudo não foram replicados.
A mesma revisão acrescenta que o próprio exercício de força intenso é capaz de elevar esses hormônios, mais uma variável a considerar em atletas em temporada competitiva.
O que os outros estudos mostraram
Depois de 2009, mais doze investigações avaliaram o efeito da creatina sobre a testosterona, com doses variadas e duração de seis dias a doze semanas.
Duas encontraram aumentos pequenos e sem relevância fisiológica na testosterona total, e as outras dez não encontraram mudança alguma. Em cinco delas a testosterona livre também foi medida, sem aumento.
A conclusão da revisão é explícita. O conjunto atual de evidências não indica que a suplementação de creatina aumente testosterona total, testosterona livre ou DHT, nem que cause queda de cabelo, e nenhum estudo reportou perda capilar em humanos.
Também não existe revisão sistemática ou metanálise, o tipo de levantamento que reúne os dados de todos os estudos disponíveis, dedicada a creatina e alopecia. Quem cita "a metanálise que já provou" está se referindo a um documento que não existe.
O ensaio que finalmente mediu cabelo
Em 2025, um grupo internacional testou diretamente a pergunta que interessa. Quarenta e cinco homens treinados, entre 18 e 40 anos, foram sorteados para receber creatina monoidratada ou maltodextrina como placebo por doze semanas. Trinta e oito completaram o estudo, publicado no Journal of the International Society of Sports Nutrition.
A diferença em relação a tudo que veio antes está no que foi medido. Além de testosterona total, testosterona livre e DHT, os pesquisadores avaliaram o cabelo em si, com exames de imagem que contam e medem os fios, o tricograma e o fototricograma. Entraram na conta densidade capilar, contagem de unidades foliculares e espessura acumulada dos fios.
Não houve diferença significativa entre os grupos em nenhuma dessas medidas, nem no DHT nem na razão entre DHT e testosterona. Foi o primeiro estudo a avaliar diretamente parâmetros do cabelo após a suplementação de creatina e, nas 12 semanas analisadas, não encontrou evidências de que ela tenha provocado queda ou piora da saúde dos folículos.
Se você percebeu queda e quer entender o que está vendo, o artigo sobre quando a queda de cabelo é normal ou excessiva ajuda a situar o quadro.
Por que hormônio no sangue não é o mesmo que cabelo caindo
Existe um salto lógico no meio do mito, e ele é a peça central do assunto. A alopecia androgenética depende menos de quanto DHT circula no sangue e mais da sensibilidade local do folículo a esse hormônio, que é determinada geneticamente.
A revisão publicada nos Anais Brasileiros de Dermatologia descreve que a enzima 5-alfa-redutase tipo 2 converte testosterona em DHT dentro do próprio folículo. O DHT se liga ao receptor androgênico com afinidade cerca de cinco vezes maior que a testosterona.
A prova mais elegante dessa lógica vem de homens que nascem com deficiência dessa enzima e não desenvolvem alopecia androgenética, independentemente dos níveis de testosterona no sangue.
O que determina o quadro é a maquinaria local do folículo, e o artigo sobre DHT e queda capilar detalha o mecanismo. A mesma explicação desfaz a ideia de que calvície é sinal de excesso de testosterona.
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O que se sabe sobre segurança da creatina
Fora da questão capilar, o cenário é bem estabelecido, e a creatina monoidratada é um dos suplementos mais estudados que existem.
O posicionamento oficial da International Society of Sports Nutrition conclui que a suplementação de curto e de longo prazo é segura e bem tolerada em indivíduos saudáveis e em diversas populações clínicas. A conclusão cobre inclusive doses altas usadas por até cinco anos.
No Brasil, a creatina é regulada como suplemento alimentar pela RDC nº 243 de 2018 e pela Instrução Normativa nº 28 de 2018 da Anvisa. As normas definem constituintes autorizados, limites de uso e regras de rotulagem.
A forma monoidratada é a que concentra a evidência acumulada, e a regularidade do produto aparece no rótulo. A literatura de segurança aqui é volumosa, em contraste com a de muitos suplementos vendidos para queda capilar.
Nada disso substitui orientação individual. Quem tem doença renal preexistente ou usa outros medicamentos deve conversar com um médico antes de suplementar.

