O Ozempic e os outros remédios para emagrecer da mesma família, como o Mounjaro, podem vir acompanhados de queda de cabelo, e na maioria dos casos quem provoca a queda é o próprio emagrecimento.
O quadro mais comum é uma queda espalhada e passageira, que os dermatologistas chamam de eflúvio telógeno e que costuma aparecer meses depois de uma perda de peso rápida.
Nos estudos com tirzepatida, os homens relataram queda com muito menos frequência que as mulheres. Um estudo genético publicado em 2026 trouxe um dado novo para eles, ao indicar que, em quem tem tendência hereditária à calvície, a própria forma de ação desses remédios pode somar risco.
É a diferença entre a queda passageira e a calvície que define o que fazer em cada caso.
Ozempic, Mounjaro e queda de cabelo: o que os estudos registraram
Ozempic virou o nome popular de toda uma classe de remédios, e os dados sobre cabelo vêm de medicamentos diferentes dentro dela. A semaglutida é a substância do Ozempic, indicado para diabetes, e do Wegovy, indicado para obesidade.
Desde que a patente caiu no Brasil, em março de 2026, ela também chegou em versões nacionais, como o Ozivy, e nos primeiros genéricos aprovados pela Anvisa. A tirzepatida é a substância do Mounjaro.
Essa separação importa porque a frequência da queda muda conforme o quanto a pessoa emagrece. Nos estudos de diabetes com tirzepatida, em que a perda de peso é mais moderada, 13 de 5.119 participantes relataram queda de cabelo, cerca de 0,25%.
Nos estudos de obesidade, em que o emagrecimento é maior, a bula americana do medicamento registra queda em 4% a 5% dos participantes, contra cerca de 1% no grupo que recebeu placebo, uma substância sem efeito usada para comparação.
A semaglutida segue o mesmo padrão. No estudo do Wegovy, a queda foi relatada por 5,3% de quem perdeu mais de 20% do peso e por 2,5% de quem perdeu menos, segundo um levantamento de 2025.
Um segundo levantamento, publicado em 2026 com 24 estudos, chegou à mesma leitura e apontou semaglutida e tirzepatida como os remédios da classe mais associados à queda.
Os dois tipos mais descritos foram a queda passageira do emagrecimento e a calvície hereditária.
Emagrecimento rápido e queda de cabelo: por que os fios caem
O emagrecimento rápido derruba fios porque o crescimento do cabelo depende de um fornecimento constante de energia e nutrientes, e uma mudança brusca na alimentação interrompe esse fornecimento.
Quando alguém passa a comer muito menos do que gasta, com menos proteína, ferro, zinco e vitamina D, nutrientes cuja falta é um gatilho conhecido desse tipo de queda, uma parte grande dos fios interrompe o crescimento ao mesmo tempo e entra na fase de descanso do ciclo capilar.
Os fios que entraram em descanso não caem na hora. Eles se soltam dois a três meses depois, de forma espalhada pela cabeça, deixando o cabelo mais ralo por igual e sem falhas localizadas.
Por causa desse atraso, a queda costuma aparecer justamente quando o tratamento parece estar dando certo, e muita gente não liga uma coisa à outra.
É o mesmo tipo de queda que acontece depois de uma cirurgia bariátrica, de uma febre alta ou de uma dieta muito restritiva, como explicamos no artigo sobre eflúvio telógeno.
Quando o peso se estabiliza e a alimentação se reequilibra, os fios tendem a voltar ao ciclo normal e a crescer de novo nos meses seguintes.
Ozempic e calvície em homens
Nos homens, a queda de cabelo com esses remédios foi bem menos frequente nos estudos.
Nos dois principais estudos de obesidade com tirzepatida, a bula aprovada nos Estados Unidos mostra que 7,1% das mulheres e 0,5% dos homens relataram queda.
No grupo placebo, foram 1,3% das mulheres e nenhum homem, e nenhum participante parou o tratamento por causa disso.
Esses números pareciam encerrar a questão para o público masculino até a publicação de um estudo da NYU Langone, nos Estados Unidos, saído em setembro de 2026. Os pesquisadores analisaram dados genéticos de mais de 200 mil pessoas e cruzaram duas informações.
De um lado, quem nasce com mais receptores de GLP-1, que são as estruturas das células em que esses remédios se encaixam para agir. De outro, quem tem calvície hereditária. Os homens com mais receptores tinham cerca de 7% mais chance de desenvolver calvície.
O achado resistiu a algumas checagens. Os pesquisadores refizeram a conta descontando pressão alta, resistência à insulina e níveis de testosterona, que seriam as explicações alternativas mais óbvias, e o risco extra continuou lá.
O que esse estudo ainda não prova
Ainda assim, o resultado precisa ser lido com cuidado, e os próprios autores dizem isso. O estudo não acompanhou pessoas usando Ozempic ou Mounjaro, e usou a genética como uma espécie de simulação natural do efeito dos remédios.
Foi feito só com homens, porque a genética da calvície masculina é bem mais conhecida que a feminina. E o tamanho do efeito é modesto, com significado clínico ainda incerto, segundo os autores.
Isso ajuda a entender outro dado dos levantamentos, em que a calvície hereditária aparece entre os tipos de queda mais descritos em quem usa esses remédios.
Em um homem com tendência à calvície, a queda passageira do emagrecimento pode tornar visível um processo que já vinha acontecendo devagar, e as entradas e o topo da cabeça, antes discretos, passam a chamar atenção.
O cabelo que caiu pelo emagrecimento tende a voltar, enquanto a calvície segue seu curso, porque tem origem genética e hormonal.
Eflúvio ou calvície: como saber qual é o seu caso
Os dois quadros se distinguem, antes de tudo, pelo desenho da queda. A queda do emagrecimento afina o cabelo por igual e tem começo datado, ligado a algo que aconteceu meses antes. A calvície hereditária segue um caminho próprio, em que a linha da testa recua, as entradas se abrem e o topo da cabeça fica mais ralo, num processo que avança devagar ao longo de anos.
O histórico da família, o tempo de evolução e o exame do couro cabeludo com uma lente de aumento, chamado tricoscopia, completam o diagnóstico. Entender quando a queda passa de normal a excessiva ajuda a situar o quadro antes da consulta.
Essa distinção muda o caminho, porque a queda do emagrecimento tende a passar sozinha, enquanto a calvície avança com o tempo e tem tratamento com eficácia comprovada, com resultados melhores quanto mais cedo ele começa.
Emagrecimento e cabelo: dá para cuidar dos dois
Os remédios da família do Ozempic trouxeram ganhos reais de saúde para quem convive com obesidade e diabetes, e a queda de cabelo, quando aparece, costuma ser uma fase passageira do emagrecimento.
O ponto de atenção é o homem que já tinha tendência à calvície e vê o processo acelerar nesse período.
Separar uma coisa da outra permite cuidar do cabelo sem abrir mão do tratamento que está funcionando.
O que lembrar
- O Ozempic, o Mounjaro e os remédios da mesma família podem causar queda de cabelo, e na maior parte das vezes a causa é o emagrecimento rápido.
- Essa queda aparece meses depois da perda de peso, deixa o cabelo ralo por igual e tende a passar quando o peso se estabiliza.
- A frequência acompanha o quanto a pessoa emagrece, e foi maior nos estudos de obesidade do que nos de diabetes.
- Nos estudos, os homens tiveram queda com muito menos frequência que as mulheres, com 0,5% contra 7,1% nos ensaios de obesidade com tirzepatida.
- Uma pesquisa genética de 2026 sugere que, em quem tem tendência à calvície, a forma de ação desses remédios pode somar risco, achado que os próprios autores consideram modesto e ainda a confirmar.
- Queda concentrada nas entradas ou no topo da cabeça pede avaliação médica, porque aí a causa pode não ser só o emagrecimento.
