A melatonina chegou aos produtos para cabelo por um caminho inesperado. Conhecida como o hormônio do sono, ela também é produzida na pele e tem receptores no folículo capilar, o que levou pesquisadores a testá-la por via tópica a partir dos anos 2000.
Vinte anos depois, o conjunto de estudos clínicos continua pequeno. Uma revisão publicada em 2024 reuniu os ensaios existentes e separou o que foi testado de verdade do que apenas parece ter sido, e essa separação é a parte mais útil da literatura para quem está decidindo se vale comprar.
Melatonina e cabelo: de onde vem a hipótese
A ideia de aplicar melatonina no couro cabeludo nasceu de duas observações. A primeira é que a substância não vem apenas da glândula pineal, já que a própria pele e o folículo capilar produzem melatonina e possuem receptores para ela.
A segunda é o papel antioxidante. A melatonina neutraliza radicais livres, e o estresse oxidativo aparece entre os processos envolvidos no envelhecimento do folículo e em várias formas de queda.
Essas duas pontas sustentam uma hipótese plausível, e é só isso que elas sustentam. Nenhum estudo demonstrou que a aplicação tópica altere o ciclo capilar humano por essa via, e a relação entre melatonina e cabelo não tem conexão estabelecida com o papel do hormônio no sono, tema que o blog trata em sono e queda de cabelo.
O único ensaio controlado com melatonina isolada
Entre os estudos clínicos disponíveis, apenas um testou a melatonina sozinha com desenho capaz de responder à pergunta. Publicado em 2004, ele foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 40 participantes que aplicavam a solução à noite.
O resultado foi positivo e restrito. Entre as participantes com alopecia androgenética, a proporção de fios em fase de crescimento aumentou na região occipital em comparação com o grupo placebo, com diferença modesta. Nas outras regiões avaliadas, a diferença não se confirmou.
Duas características desse ensaio limitam o que ele diz para o público deste blog. A amostra era pequena, com doze participantes no grupo de alopecia androgenética, e todas as 40 participantes eram mulheres, o que deixa a calvície masculina fora do alcance do resultado.
Os estudos em homens e o problema do grupo sem comparação
Quatro trabalhos avaliaram a melatonina tópica em homens, e nenhum deles usou placebo. Um estudo de 2007 acompanhou 31 homens com calvície inicial por seis meses e não encontrou diferença estatisticamente significativa na densidade dos fios, com variação que os revisores associaram a efeito sazonal.
Dois estudos posteriores, com 40 homens cada, compararam formulações diferentes de melatonina entre si e com o ponto de partida de cada participante. Ambos registraram melhora de densidade e espessura, e em ambos a formulação mais elaborada se mostrou superior à solução simples.
Há ainda uma série de cinco estudos abertos publicada em 2012, com homens e mulheres, que registrou aumento de cerca de 40% na contagem e na densidade dos fios. A solução testada ali combinava melatonina com biotina e extrato de ginkgo biloba, o que impede atribuir o resultado à melatonina, limitação que também aparece na avaliação da biotina isolada.
Por que a falta de placebo pesa tanto no cabelo
Em muitas áreas da medicina, um estudo aberto que compara o antes e o depois oferece alguma informação. No cabelo, essa comparação é especialmente frágil, e o estudo de 2007 mostra por quê.
A densidade capilar varia ao longo do ano por conta própria, com períodos de queda mais intensa e de recuperação. Um participante avaliado no início do inverno e reavaliado no fim do verão pode melhorar sem nenhum tratamento, e o estudo aberto registra isso como efeito do produto.
O placebo resolve esse problema porque o grupo de comparação atravessa as mesmas estações. É a razão pela qual os revisores consideraram apenas o ensaio de 2004 como evidência de boa qualidade, e também a razão pela qual os quatro estudos em homens não permitem conclusão.
Melatonina no Brasil: como ela é autorizada
No Brasil, a melatonina tem uma situação regulatória definida, e ela não inclui o cabelo. Em outubro de 2021, a diretoria colegiada da Anvisa aprovou a inclusão da substância na lista de constituintes autorizados de suplementos alimentares, como substância bioativa, com limite diário de consumo e restrição a maiores de dezenove anos.
Essa autorização trata do uso por via oral e de alegações relacionadas ao sono. Nenhum medicamento tópico com melatonina para queda de cabelo foi encontrado com registro na Anvisa, e os produtos que circulam no mercado brasileiro são cosméticos ou preparações feitas em farmácia de manipulação.
A diferença entre essas categorias importa na prática. Um cosmético não precisa demonstrar eficácia sobre a queda de cabelo para ser comercializado, e uma preparação manipulada não passa pelo processo de registro exigido de um medicamento, situação parecida com a de outras alternativas analisadas em remédio caseiro para queda de cabelo.
O que perguntar antes de comprar
Uma loção com melatonina costuma chegar ao consumidor pelo rótulo, e o rótulo não distingue um ingrediente com um ensaio controlado em 40 mulheres de um ingrediente com décadas de estudos em milhares de homens. Essa distinção é o que define o lugar de cada produto em um plano de tratamento.
Duas perguntas resolvem a maior parte dos casos. A primeira é se existe estudo com placebo na população do comprador, o que no caso da melatonina tópica em homens ainda não existe. A segunda é se o produto está sendo oferecido no lugar de um tratamento com eficácia estabelecida, caminho em que a perda de tempo custa fios, como mostra o panorama de medicamentos para crescer cabelo.
O que lembrar
A melatonina tópica tem um único ensaio randomizado com a substância isolada, publicado em 2004, com 40 mulheres e resultado restrito a uma região do couro cabeludo. Os quatro estudos em homens foram abertos e sem placebo, desenho que não separa o efeito do produto da variação sazonal do cabelo.
A revisão que reuniu esses trabalhos conclui que há pouca evidência de efeito claro sobre o crescimento capilar. No Brasil, a melatonina é autorizada como constituinte de suplementos alimentares por via oral, sem medicamento tópico registrado para queda de cabelo, e qualquer decisão de tratamento passa pela avaliação médica.

