O ferro participa de processos essenciais dentro do folículo, e a ferritina, proteína que armazena o mineral no corpo, é o exame mais usado para avaliar esse estoque.
A relação entre os dois aparece de forma mais consistente no eflúvio telógeno, a queda difusa e passageira, em que estudos encontraram ferritina significativamente mais baixa do que em pessoas sem queda.
Na calvície masculina, a história é outra. Um estudo caso-controle com homens não encontrou diferença significativa de ferritina entre quem tinha calvície e quem não tinha, nem relação entre o valor do exame e o grau da queda.
E há um detalhe que pesa mais que o resultado do cabelo, porque em homens a ferritina baixa costuma ter causas que precisam ser investigadas.
Por que o ferro entra na investigação
O folículo capilar é uma das estruturas do corpo com divisão celular mais intensa, e essa produção contínua depende de oxigênio e de energia, dois processos em que o ferro participa diretamente.
Quando o estoque do mineral cai, o organismo prioriza funções vitais, e o cabelo fica entre os últimos da fila.
Foi esse raciocínio que colocou a ferritina nos exames de rotina de quem procura o médico por queda de cabelo. A dúvida que os estudos tentam responder é se a falta de ferro realmente causa a queda, e em quais tipos de queda essa relação se confirma.
O que os estudos encontraram
No eflúvio telógeno
A relação mais estudada é com o eflúvio telógeno, a queda difusa que costuma aparecer meses depois de um estresse ao organismo, tema do artigo sobre eflúvio telógeno.
Um estudo que comparou pacientes com eflúvio a pessoas sem queda encontrou ferritina significativamente mais baixa no primeiro grupo, e concluiu que o exame pode servir como marcador auxiliar no diagnóstico.
Um estudo mais recente, com mulheres, chegou ao mesmo lugar. A ferritina média foi de 24,3 ng/mL nas pacientes com eflúvio e de 44,8 ng/mL no grupo de comparação, e 28% delas tinham valores abaixo de 15 ng/mL, contra nenhuma pessoa do grupo sem queda.
Mesmo aí a evidência tem contrapeso. Um estudo com 381 mulheres com queda de padrão feminino ou eflúvio crônico, comparadas a 76 mulheres sem queda, não encontrou deficiência de ferro mais frequente no grupo com queda de cabelo.
Na calvície masculina
Quase toda a pesquisa sobre ferro e cabelo foi feita em mulheres, e os poucos trabalhos com homens não sustentam a associação.
No estudo caso-controle com 30 homens com calvície e 30 sem, a ferritina média foi até um pouco maior no grupo com calvície, sem diferença estatística, e não houve correlação entre o valor do exame e o estágio da queda.
Isso faz sentido diante do que se sabe sobre a calvície masculina, que resulta da ação do DHT, um derivado da testosterona, sobre folículos geneticamente sensíveis, como detalhamos no guia de calvície masculina. Repor ferro não interfere nesse processo.
Ferritina: o que o exame mede e por que o valor gera confusão
A ferritina mede o ferro guardado no organismo, e cai antes de a anemia aparecer no hemograma. É por isso que alguém pode ter ferritina baixa com hemoglobina normal, uma situação chamada deficiência de ferro sem anemia.
O que gera confusão é o corte. Os estudos sobre cabelo usam valores diferentes para definir deficiência, às vezes 15 ng/mL, às vezes 40 ng/mL, e cada laboratório trabalha com sua própria faixa de referência.
Metas de ferritina mais altas, voltadas especificamente para o cabelo, circulam entre especialistas, mas vêm de autores isolados e não foram confirmadas em ensaios clínicos.
Há ainda um complicador na direção oposta. A ferritina sobe em quadros de inflamação, doença renal crônica e tumores, o que pode mascarar uma deficiência real.
Por isso a leitura do exame costuma vir acompanhada de outros marcadores do ferro, e não isolada.
Ferritina baixa no homem: um sinal que pede investigação
Esse é o ponto que a maior parte dos conteúdos sobre ferro e cabelo deixa de fora.
A revisão de referência sobre o tema, publicada no Journal of the American Academy of Dermatology, registra que, em homens e em mulheres depois da menopausa, a causa mais comum de anemia por falta de ferro é sangramento no trato digestivo ou dificuldade de absorção.
Em um homem adulto, portanto, ferritina baixa não é um problema a resolver com suplemento, e sim um achado que pede investigação da causa. A mesma revisão observa que pacientes que não respondem à reposição precisam de exames adicionais para identificar o que está por trás da perda de ferro.
Repor ferro sem deficiência: o risco de sobrecarga
O ferro em excesso se acumula nos tecidos e é difícil de eliminar. A suplementação excessiva pode causar sobrecarga de ferro e deve ser evitada, principalmente em quem tem hemocromatose hereditária, uma condição genética que faz o corpo absorver ferro demais.
O risco não é teórico. Um relato de caso publicado em 2025 descreve mãe e filha que desenvolveram sobrecarga de ferro depois do uso prolongado de suplemento vendido sem receita, com acúmulo do mineral no fígado, no baço e na medula óssea, e precisaram de cerca de dois anos de tratamento com retirada de sangue.
A mesma lógica que vale para as outras vitaminas para queda de cabelo vale aqui, já que repor faz sentido quando a falta é documentada. Sendo assim, todo tratamento precisa de orientação e supervisão médica para ser eficaz e seguro.
Exames de queda de cabelo: o que eles respondem e o que não respondem
A ferritina ajuda a identificar um fator tratável em quem tem queda difusa, e em homem ela pode apontar um problema de saúde que nada tem a ver com o cabelo.
O que ela não faz é explicar a calvície de padrão masculino, que segue seu curso independentemente do estoque de ferro. Saber o que cada exame responde evita meses de suplemento sem resultado e abre caminho para o tratamento certo.
O que lembrar:
- O ferro participa do funcionamento do folículo, e a ferritina baixa aparece com mais frequência em quem tem eflúvio telógeno, embora nem todos os estudos confirmem essa associação.
- Na calvície masculina, os trabalhos disponíveis não encontraram diferença de ferritina entre quem tem e quem não tem a condição.
- Em homens, ferritina baixa merece atenção pelo que pode indicar, já que as causas mais comuns envolvem sangramento digestivo ou problemas de absorção.
- Suplementar ferro sem deficiência confirmada não melhora o cabelo e pode levar a sobrecarga do mineral, com acúmulo em órgãos.