O PRP capilar tem evidência favorável e um problema de fundo que costuma ficar de fora da conversa. As revisões sistemáticas encontram aumento de densidade em comparação com placebo, e as mesmas revisões registram heterogeneidade muito alta entre os estudos, viés de publicação e ausência de protocolo padronizado.
Há ainda um ponto brasileiro que muda a leitura. A resolução do Conselho Federal de Medicina que passou a autorizar o PRP em 2026 lista quatro indicações, e nenhuma delas é capilar.
O que é o PRP
Plasma rico em plaquetas é uma fração do sangue do próprio paciente. O sangue é coletado, centrifugado para separar os componentes e a porção com concentração de plaquetas acima do normal é aplicada por injeções no couro cabeludo.
O racional é que as plaquetas carregam fatores de crescimento envolvidos em reparo de tecido e proliferação celular, e que concentrá-los na área afetada estimularia o folículo. É uma hipótese com base biológica, e o caminho entre ela e o resultado clínico ainda não está descrito com precisão.
O que os estudos encontraram
A revisão mais completa é brasileira. Pesquisadores da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre reuniram 14 estudos com 431 pacientes e publicaram a análise nos Anais Brasileiros de Dermatologia.
A conclusão deles é direta: estudos altamente heterogêneos e com viés de publicação sugerem que o PRP aumenta a densidade capilar, e ensaios de melhor qualidade são necessários para sustentar essa evidência.
Uma metanálise com nove ensaios randomizados e 238 pacientes traz um detalhe que ajuda a dimensionar o efeito. A densidade capilar aumentou de forma significativa em relação ao placebo aos três e aos seis meses.
Já a contagem de fios e o diâmetro do fio aumentaram em relação ao ponto de partida, sem diferença significativa quando comparados ao placebo.
Outra revisão sistemática resume o estado da questão de forma parecida, apontando potencial terapêutico e ressaltando que a baixa qualidade da evidência, o risco de viés moderado e a heterogeneidade alta limitam as conclusões.
O problema de chamar tudo de PRP
Aqui está a razão técnica de tanta variação. O PRP não é um produto padronizado, é o resultado de um processo, e cada etapa desse processo muda o que acaba sendo injetado.
Uma análise que investigou essa dispersão registra heterogeneidade próxima de 93% entre os estudos e lista as fontes: método de preparo, número de centrifugações, concentração final de plaquetas, uso ou não de ativador, quantidade aplicada, número de sessões, intervalo entre elas e técnica de injeção. A mesma análise encontrou diferença entre protocolos de centrifugação simples e dupla.
Na prática isso significa que dois pacientes que fizeram PRP em clínicas diferentes podem ter recebido preparações bem distintas. O resultado de um estudo não se transfere automaticamente para o procedimento oferecido na esquina.
O que a regra brasileira diz hoje
Durante mais de uma década o PRP foi classificado como procedimento experimental pelo Conselho Federal de Medicina, permitido apenas dentro de protocolos de pesquisa aprovados.
Isso mudou em 2026. A Resolução CFM nº 2.464/2026 revogou a norma anterior e passou a autorizar o PRP como procedimento adjuvante, com uma lista fechada de quatro indicações, todas osteomusculares: osteoartrite de joelho, discopatia lombar, epicondilite lateral do cotovelo e reparo meniscal.
O próprio texto afirma que adota um modelo baseado em indicações específicas, evitando autorização genérica para finalidades indiscriminadas.
Alopecia não está na lista. A Sociedade Brasileira de Dermatologia, em nota técnica, também registra que o PRP não tem evidência científica suficiente para uso na prática médica no tratamento de cabelos e alopecias, e que mais estudos são necessários.
A produção do PRP, por sua vez, segue a nota técnica da Anvisa que trata de produtos do sangue para fins não transfusionais, com exigências de boas práticas, rastreabilidade e serviço licenciado pela vigilância sanitária.
Onde o PRP entraria no tratamento
Nos estudos, o PRP nunca aparece tratando a causa. Ele não reduz a ação do DHT sobre o folículo, e a alopecia androgenética continua avançando enquanto o procedimento estimula o crescimento por outra via, se estimular.
É por isso que as revisões o descrevem como adjuvante, e não como substituto dos bloqueadores de DHT ou do minoxidil. O mesmo raciocínio vale para quem considera cirurgia: nenhum dos dois dispensa o tratamento clínico que segura a progressão.
Para quem quer o panorama das opções e do que cada uma sustenta, o comparativo de tratamentos organiza o quadro.
O que isso significa para quem considera fazer PRP
O PRP tem sinais de benefício para a densidade capilar, mas ainda existe distância entre um resultado positivo em estudo e saber o que esperar de um procedimento feito na prática.
Os protocolos variam muito entre clínicas, a qualidade da evidência ainda é limitada e, no Brasil, o uso para alopecia não está entre as indicações autorizadas pelo CFM.
Por isso, o PRP não deve ser entendido como substituto do tratamento da alopecia androgenética. Antes de considerar o procedimento, o mais importante é confirmar a causa da queda, o estágio da calvície e quais opções têm evidência mais consistente para aquele caso.
O que lembrar
- As metanálises sobre PRP na alopecia androgenética encontram aumento de densidade capilar em relação ao placebo, e as mesmas análises registram heterogeneidade próxima de 93%, viés de publicação e baixa qualidade da evidência, além de não encontrarem diferença significativa em contagem e diâmetro do fio quando a comparação é com placebo.
- A ausência de protocolo padronizado é a raiz do problema, porque preparo, número de sessões e técnica variam de clínica para clínica.
- No Brasil, a resolução do Conselho Federal de Medicina que autorizou o PRP em 2026 lista quatro indicações osteomusculares e não inclui alopecia, e a Sociedade Brasileira de Dermatologia mantém que a evidência é insuficiente para uso capilar.
